Cabeças de cera, máscaras 3D e deepfakes: a nova guerra dos bancos contra o crime digital

Em um cenário em que tokens e senhas se tornam obsoletos, a biometria emerge como o novo padrão de segurança digital. Impressões digitais, reconhecimento facial e até análise de voz já dominam os sistemas de autenticação de bancos, carteiras digitais e aplicativos de serviços públicos. No entanto, essa revolução tecnológica também despertou o interesse dos cibercriminosos — que agora usam inteligência artificial, impressoras 3D e até cabeças de cera para enganar os sistemas de segurança.

Segundo levantamento da Juniper Research, mais de 4,2 bilhões de dispositivos móveis já contam com algum tipo de biometria ativa, e a expectativa é de que, até o fim de 2026, 57% das transações digitais globais sejam validadas por meio desses métodos. No Brasil, a aceitação é ainda mais expressiva: 73% dos consumidores afirmam se sentir mais seguros ao usar biometria do que senhas numéricas, de acordo com a Accenture.

Mas, enquanto o uso se populariza, cresce também a sofisticação dos golpes. “Com o avanço das tecnologias biométricas, especialmente o reconhecimento facial, criminosos vêm desenvolvendo técnicas cada vez mais complexas, muitas delas alimentadas por IA generativa, capazes de burlar os sistemas de autenticação”, explica Anchises Moraes, Head de Threat Intelligence da Apura Cyber Intelligence S.A.

Golpes em cinco níveis: da selfie falsa ao deepfake perfeito

De acordo com Moraes, há cinco níveis de complexidade nos ataques contra sistemas biométricos. No primeiro, os golpistas utilizam fotos digitais, vídeos em HD ou máscaras de papel. O segundo eleva o grau de realismo com bonecos e máscaras 3D de látex ou silicone.

O nível três é ainda mais inquietante: nele, fraudadores empregam cabeças de cera hiper-realistas para enganar sensores faciais. Já no quarto, recorrem à manipulação de mapas faciais 3D, alterando dados que comprovam a “prova de vida”. Por fim, o nível cinco — o mais avançado — envolve a injeção digital de imagens e vídeos diretamente nos dispositivos, ou o uso de deepfakes em tempo real, reproduzindo com perfeição a imagem e voz de usuários legítimos.

Esses ataques já causam prejuízos milionários. Um relatório da Deloitte, publicado pelo portal Infochannel, projeta que fraudes digitais impulsionadas por IA podem gerar perdas de até R$ 4,5 bilhões no Brasil até o fim de 2025. O uso de deepfakes cresceu mais de 800% nos últimos anos.

Um caso emblemático ocorreu na China, quando um funcionário de uma estatal transferiu US$ 622 mil (R$ 3,1 milhões) após participar de uma videoconferência com quem acreditava ser seu CEO. O golpista, na verdade, usava um deepfake em tempo real, criado a partir de vídeos públicos do executivo.

Defesa em múltiplas camadas: IA contra IA

Com a escalada dos ataques, as empresas de cibersegurança estão apostando em sistemas multimodais para fortalecer a proteção. Esses sistemas cruzam dados de vídeo, áudio, sensores de temperatura e profundidade, além de análise comportamental, tornando as tentativas de fraude mais difíceis de executar.

Soluções mais avançadas já incorporam detecção de deepfakes em tempo real e biometria comportamental, que monitora padrões sutis — como a forma de segurar o celular, a velocidade de digitação e a pressão exercida na tela.

Outras técnicas emergentes incluem testes de desafio dinâmico — em que o sistema pede para o usuário executar ações imprevisíveis, como piscar um olho ou repetir frases aleatórias — e a combinação de provas de vida ativas e passivas, unindo análises automáticas de vídeo com interações humanas.

Paralelamente, cresce o monitoramento da dark web para detectar o uso indevido de dados biométricos em fraudes emergentes. “Na Apura, trabalhamos para identificar ameaças antes que elas se concretizem e, quando um ataque ocorre, investigamos cada detalhe para aprimorar continuamente as estratégias defensivas”, conclui Anchises Moraes.

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Redação tecflow

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