
À medida que a inteligência artificial se torna onipresente no cotidiano, desde assistentes virtuais até a criação de conteúdos complexos, cresce também o consumo de recursos naturais necessários para mantê-la em funcionamento. Um impacto ambiental ainda pouco discutido, mas alarmante, diz respeito ao uso da água: cada interação com sistemas de IA pode representar o consumo de litros de água, especialmente nos processos de resfriamento dos data centers que sustentam essas plataformas.
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Enquanto a sociedade avança em direção a uma transformação digital sem precedentes, especialistas alertam para os custos invisíveis dessa evolução. Segundo estimativas, o treinamento de um único modelo de IA pode consumir milhões de litros de água, volume suficiente para abastecer dezenas de pessoas durante um ano. Em tempos de escassez hídrica e emergência climática, ignorar esse dado é negligenciar o verdadeiro impacto ambiental da tecnologia.
Para compreender melhor esse cenário, conversamos com Sibylle Muller, CEO da NeoAcqua, empresa brasileira especializada em soluções de reúso e tratamento de água. Com mais de duas décadas de experiência no setor de saneamento, Sibylle defende uma nova abordagem para o desenvolvimento tecnológico, que una inovação e responsabilidade ambiental. Nesta entrevista, ela explica por que é urgente debater a pegada hídrica da IA, como tornar os data centers mais sustentáveis e o que precisa ser feito, com urgência, para que o avanço digital não comprometa o futuro dos nossos recursos naturais.

tecflow: O consumo de água por data centers ainda é pouco discutido publicamente. Por que a NeoAcqua acredita que essa pauta precisa ganhar mais atenção no debate ambiental atual?
Sibylle Muller, CEO da NeoAcqua: À medida que a demanda por tecnologia cresce, aumenta também a necessidade de energia e de sistemas de resfriamento que, muitas vezes, dependem de grandes volumes de água. E isso não pode ser ignorado, principalmente em um cenário onde vários países, incluindo o Brasil, já enfrentam desafios relacionados à escassez hídrica. É fundamental trazer esse tema para o debate, para que empresas, governos e a sociedade entendam que o avanço tecnológico precisa acontecer de forma responsável, considerando também os impactos no meio ambiente.
tecflow: O que pode ser feito, na prática, para tornar os sistemas de resfriamento de data centers mais sustentáveis do ponto de vista hídrico?
Sibylle Muller: Esse é um desafio global. A demanda por data centers cresce no mundo inteiro, acompanhando o avanço da inteligência artificial e de tudo que é feito no ambiente digital. E esse crescimento traz, sim, uma pressão enorme sobre recursos como água e energia. A nível global percebemos uma forte movimentação de empresas que buscam investir em soluções mais sustentáveis, como reúso de água, refrigeração mais eficiente e energia renovável. E aqui no Brasil esse debate começa a ganhar mais força agora, porque, apesar de termos muitos recursos hídricos, também vivemos situações de escassez em várias regiões. Então, é o momento de pensar como unir tecnologia, inovação e gestão eficiente dos recursos naturais, para que esse crescimento seja de fato sustentável.

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tecflow: A NeoAcqua acredita que as empresas de tecnologia estão suficientemente conscientes do impacto ambiental do uso intensivo de IA? Quais medidas deveriam adotar imediatamente?
Sibylle Muller: Acredito que esse é um processo que está começando a ganhar mais força agora. Algumas grandes empresas já têm metas de redução de impacto ambiental, falam em neutralizar carbono e melhorar eficiência, mas quando olhamos especificamente para a questão hídrica, ainda falta transparência e responsabilidade. O primeiro passo é reconhecer esse impacto, tornar esses dados públicos, e imediatamente incorporar sistemas de gestão hídrica, reúso e eficiência. Da mesma forma que o setor correu para investir em energia renovável, agora precisa fazer o mesmo quando o assunto é água.
tecflow: Como a NeoAcqua pensa para incentivar práticas de reúso, reciclagem e gestão eficiente da água em ambientes de alta demanda tecnológica?
Sibylle Muller: Nosso trabalho começa com a promoção da conscientização das empresas sobre a importância de uma gestão hídrica mais eficiente. Enfatizamos os benefícios ambientais, especialmente a redução da captação de água em fontes naturais, e mostramos que essa prática não só contribui para a sustentabilidade, como também gera economia. O reúso, a reciclagem e o controle de perdas permitem uma redução significativa nos custos com água. Além disso, reforçamos outros ganhos estratégicos, como a valorização dos empreendimentos por meio de certificações ambientais, o aumento da autonomia hídrica — essencial em cenários de escassez. Entendemos, ainda, como importante o fomento e a elaboração de leis que promovam a sustentabilidade por meio da introdução de Incentivos fiscais municipais, estaduais ou federais para quem adotar soluções que mitiguem danos ambientais como, por exemplo, o reuso de água.
tecflow: Na sua visão, como podemos equilibrar o avanço da transformação digital com a necessidade de preservar recursos naturais cada vez mais escassos, como a água?
Sibylle Muller: Esse equilíbrio só acontece quando a sustentabilidade deixa de ser um tema paralelo e passa a ser parte central das decisões de inovação. A transformação digital precisa caminhar junto com a transformação ambiental. Hoje, já temos tecnologia e conhecimento para fazer isso — seja reaproveitando água, seja otimizando processos, reduzindo perdas e/ou adotando fontes limpas de energia. O que falta é priorizar esse tema. A verdade é que não existe mais espaço para crescer desconectado dos limites do planeta. A inovação que não for sustentável, simplesmente não será viável no futuro.
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Marciel
Formado em Jornalismo, o editor atua há mais de 10 anos na cobertura de notícias relacionadas ao mercado B2B. Apesar de toda a Transformação Digital, ainda prefere ouvir música de forma analógica, no toca-discos.

