O Brasil está posicionado para assumir um papel estratégico na corrida global da Inteligência Artificial (IA), impulsionado por um trunfo que se tornou o maior gargalo do setor no resto do mundo: a abundância de energia limpa e renovável. Durante o Web Summit Rio, grandes nomes da infraestrutura tecnológica debateram como o país pode deixar de ser apenas um coadjuvante para se transformar em um protagonista na cadeia de valor da IA, desde o desenvolvimento de aplicações até o processamento de dados em larga escala.
O debate internacional hoje gira em torno de uma questão crucial levantada pelo jornalista Harry Booth, da revista Time: “A energia é um gargalo?” Enquanto em países do Hemisfério Norte o horizonte energético limitado já restringe a expansão tecnológica, no Brasil o cenário é inverso.
O diferencial brasileiro: desperdício de gigawatts e potencial de escala
Para Alessandro Lombardi, presidente da Elea Data Center, o país está em uma posição privilegiada. Ele defende que o Brasil não enfrenta escassez, mas sim uma subutilização de seus recursos.
“Estamos jogando fora gigawatts de energia renovável todos os dias porque ninguém a está utilizando”, afirmou Lombardi durante o evento.
O anúncio oficial ocorreu durante o evento Google For Brasil, mantendo o CIEE como maior parceiro do Google na distribuição de…
Para ilustrar esse potencial de abastecimento para supercomputadores e servidores de IA, o executivo destacou o projeto AI City, em desenvolvimento na Zona Sudoeste do Rio de Janeiro. A primeira fase do complexo prevê uma capacidade de 1,5 gigawatts, com potencial para atingir 3,2 gigawatts na segunda etapa, números robustos o suficiente para atrair grandes players globais e apoiar a inovação local e internacional.
Essa infraestrutura limpa e sustentável coloca os data centers brasileiros à frente da concorrência global, conectando diretamente o setor de tecnologia à modernização do modelo energético nacional.
Além da energia: a urgência de uma política industrial
Apesar do otimismo com a matriz energética, especialistas alertam que a eletricidade sozinha não garante o sucesso tecnológico. Victor Arnaud, diretor da Equinix, enfatizou que o país precisa estruturar um ecossistema completo para não repetir erros do passado.
“Precisamos de uma política industrial para participar de toda a cadeia: chips, infraestrutura, modelos e aplicações”, alertou Arnaud.
Segundo o executivo, sem uma regulamentação adequada e um ambiente de negócios favorável, o Brasil corre o risco de se tornar meramente um “fornecedor de recursos naturais digitais”, exportando dados brutos sem gerar valor agregado. O objetivo, segundo os painelistas, deve ser transformar o território nacional em um hub global para o treinamento de modelos de IA.
O papel do governo e o futuro do setor
Tanto Lombardi quanto Arnaud concordam que o avanço depende da criação de um framework regulatório robusto e de incentivos fiscais. Um dos principais pleitos do setor é o avanço do Retada (Regime Especial de Tributação para Serviços de Data Center) no Congresso Nacional, uma medida considerada urgente para atrair capital estrangeiro.
Os especialistas projetam que a adoção da IA será ubíqua em quase todas as esferas da sociedade dentro de cinco a dez anos. O sucesso de megaprojetos sustentáveis como a AI City pode consolidar o Brasil como o principal modelo mundial de tecnologia verde. No entanto, o relógio está correndo: para transformar o potencial de gigawatts limpos em soberania tecnológica, o país precisa acelerar suas políticas públicas e garantir a segurança jurídica que o mercado global exige.
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