

Por Caciporé Valente, CEO da Netrin
As empresas brasileiras avançaram em compliance, auditoria e controles internos nos últimos anos, mas continuam falhando em lidar com um dos principais vetores de risco corporativo: a cadeia de parceiros. O problema não é apenas percepção. A pesquisa “Global Risk Management Survey 2026”, da Deloitte, mostra que apenas 7% das organizações no Brasil alcançaram um estágio realmente integrado de gestão de riscos, enquanto a maior parte ainda opera de forma reativa.
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Nesse cenário, fornecedores, prestadores de serviço e parceiros comerciais seguem sendo tratados como elementos secundários, embora hoje estejam diretamente conectados à operação e à continuidade dos negócios. O paradoxo é evidente: as empresas sofisticaram os mecanismos de controle “da porta para dentro”, mas seguem pouco preparadas para gerenciar os riscos que vêm de fora, onde as crises mais complexas surgem.
Em mercados mais maduros, como Estados Unidos e Europa, a gestão de risco de parceiros, conhecida globalmente como Third-Party Risk Management (TPRM), já ocupa espaço central nas decisões estratégicas das empresas. Segundo a Grand View Research, o mercado global de TPRM foi estimado em US$7,42 bilhões em 2023 e pode superar US$20 bilhões até 2030.

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Apesar desse crescimento, o segmento ainda está em estágio inicial no Brasil, especialmente quando comparado à América do Norte, responsável por mais de 38% da receita global do setor em 2023. Enquanto empresas americanas e europeias passaram a tratar o risco de parceiros como uma agenda de resiliência e governança, grande parte das organizações brasileiras ainda concentra seus esforços em processos pontuais de homologação e conformidade regulatória.
Parte dessa diferença passa pela cultura corporativa. Segundo a Deloitte, 58% das empresas brasileiras apontam a própria cultura organizacional como principal barreira para evoluir nessa agenda. Há ainda a limitação tecnológica. Embora 94% das empresas afirmem coletar indicadores de risco, mais de 60% ainda operam com ferramentas básicas ou com limitações significativas. Apenas 3% utilizam inteligência artificial de forma avançada. No entanto, mais do que um atraso regulatório ou tecnológico, o desafio brasileiro é, sobretudo, de maturidade operacional.
Historicamente, a gestão de riscos foi estruturada para proteger operações internas, com foco em auditoria e conformidade regulatória. Hoje, porém, fornecedores, operadores logísticos, prestadores de serviço e parceiros de tecnologia passaram a integrar a cadeia crítica das organizações, ampliando a exposição das empresas a riscos financeiros, reputacionais, regulatórios e cibernéticos.
Na prática, as empresas acumulam dados, mas têm baixa capacidade de antecipação. Esse cenário ajuda a explicar por que crises corporativas recentes tiveram origem justamente fora das empresas. As denúncias de trabalho análogo à escravidão envolvendo vinícolas do Rio Grande do Sul e empresas terceirizadas em 2023 são um exemplo de como falhas de diligência e monitoramento podem extrapolar o campo operacional e atingir reputação e valor de marca.
Em situações menos visíveis, os impactos aparecem na forma de passivos fiscais e regulatórios gerados por falhas de validação e monitoramento da cadeia de fornecedores. Só em 2025, o Tribunal de Impostos e Taxas de São Paulo (TIT/SP) registrou mais de R$2,4 bilhões em autuações ligadas a créditos de ICMS envolvendo fornecedores declarados inidôneos. Isso ocorre porque muitas empresas ainda mantêm relações comerciais com parceiros que acumulam irregularidades fiscais, trabalhistas ou regulatórias sem qualquer acompanhamento contínuo.
Diante desse cenário, o desafio agora exige uma mudança de postura: apenas reconhecer a relevância do tema é insuficiente, e as empresas precisam desenvolver capacidade real de gestão sobre cadeias complexas. Isso exige monitoramento contínuo, integração entre áreas e uso mais estratégico de dados. Em um ambiente no qual fornecedores e parceiros passaram a integrar a operação das empresas, ignorar essa transformação significa ampliar vulnerabilidades que há muito deixaram de ocupar um papel secundário dentro das organizações.
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Redação tecflow
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