Entrevista | Jay McMullan, da Motive, explica como eSIM, satélites e IA vão transformar as telecomunicações

A transformação digital das telecomunicações na América Latina está entrando em uma nova fase. Impulsionada pela expansão do eSIM, pela chegada da conectividade direta via satélite aos smartphones e pelo avanço de soluções de autenticação mais seguras, a região começa a superar desafios históricos relacionados à cobertura de rede, fraude digital e inclusão tecnológica.

Durante o MWC 360 LATAM, realizado na Cidade do México, a Motive apresentou casos concretos que já estão em operação em mercados como Brasil, Chile e outros países da região. As iniciativas envolvem desde serviços móveis via satélites de órbita baixa (LEO) para comunidades remotas até a autenticação silenciosa baseada em SIM, tecnologia que busca substituir os tradicionais códigos enviados por SMS, frequentemente explorados em golpes digitais.

Segundo a empresa, o Motive Entitlement Server (ES) vem desempenhando papel estratégico em projetos conduzidos por operadoras como Claro, Vivo e Entel, permitindo acelerar a adoção do eSIM, simplificar a ativação de dispositivos e criar novas oportunidades de monetização ligadas à identidade digital e à segurança de serviços online.

Em entrevista exclusiva ao tecflow, Jay McMullan, vice-presidente de Vendas para as Américas da Motive, detalha como tecnologias como autenticação baseada em SIM, Open Gateway, conectividade Direct-to-Device via satélite e a evolução do eSIM devem redefinir o futuro das telecomunicações na América Latina. O executivo também analisa os investimentos que as operadoras precisarão realizar para atender à crescente demanda gerada por inteligência artificial, Internet das Coisas (IoT) e bilhões de dispositivos conectados nos próximos anos.

tecflow: A América Latina apresenta desafios únicos de conectividade, como regiões remotas e altos índices de fraude digital. Quais tecnologias devem ganhar maior protagonismo nos próximos cinco anos para enfrentar esses desafios e por quê?

    Jay McMullan, vice-presidente de Vendas para as Américas da Motive: As tecnologias mais importantes para os próximos cinco anos não são necessariamente novas; são ativos que as operadoras já possuem, mas que ainda não exploraram plenamente.

    O cartão SIM é o token de identidade mais seguro da tecnologia de consumo. Ele é verificado criptograficamente e autenticado continuamente pela rede. Durante décadas, porém, utilizamos esse recurso para uma única finalidade: permitir o acesso à rede. No momento em que alguém precisava acessar sua conta bancária ou concluir uma compra, transferíamos essa responsabilidade para senhas de uso único enviadas por SMS, um canal que a própria rede nunca considerou suficientemente seguro para sua própria proteção. É justamente aí que a fraude encontra espaço para atuar.

    O que estamos observando agora com as operadoras no Brasil é o fechamento dessa lacuna. A autenticação silenciosa baseada em SIM, implementada por meio de modernos Entitlement Servers e disponibilizada por APIs do GSMA Open Gateway, é a tecnologia que finalmente permite monetizar esse ativo. No universo do eSIM, o crescimento de 63% nas ativações da Claro em relação ao ano anterior demonstra que a demanda já existe.

    tecflow: A autenticação silenciosa baseada em SIM tem sido apontada como uma alternativa mais segura ao SMS OTP. Quais benefícios concretos essa tecnologia oferece para consumidores, operadoras e empresas, especialmente em mercados como o brasileiro?

      Jay McMullan: O SMS OTP nunca foi realmente seguro. Ele era apenas conveniente e amplamente disponível, e durante muito tempo isso foi suficiente. Hoje, porém, já não é mais.

      O problema é estrutural. As equipes da Telefónica, que analisaram esse tema em profundidade, avaliaram três abordagens antes de optar pela autenticação baseada em SIM: o mapeamento por IP, que falha em conexões via Wi-Fi e VPN; a autenticação SIM privilegiada pelo sistema operacional, que oferece alta segurança, mas é complexa e dependente do sistema operacional; e o SMS OTP, amplamente disponível, porém vulnerável a fraudes em todas as etapas. Interceptação de mensagens, sequestro de identidade por troca de SIM (SIM swap) e phishing no momento da inserção manual do código. No Brasil, esses não são casos isolados. Eles ocorrem em uma escala que torna os métodos tradicionais de autenticação comercialmente arriscados.

      A autenticação silenciosa baseada em SIM elimina esses pontos de vulnerabilidade. Ela opera dentro da rede móvel segura, sem que informações trafeguem por canais suscetíveis a interceptação, e funciona em qualquer cenário de conectividade, incluindo Wi-Fi e VPN. Para os consumidores, o processo de autenticação torna-se invisível, sem necessidade de inserir códigos manualmente. Para as empresas, isso se traduz em taxas de conclusão mais altas e menos estornos e fraudes. Já para as operadoras, há a eliminação dos custos por mensagem e a possibilidade de transformar a capacidade de identidade da rede em um produto de API pelo qual as empresas estão dispostas a pagar.

      Durante uma sessão com o Google no MWC Barcelona deste ano, o líder de inovação em segurança da empresa resumiu a questão de forma direta: “Tudo começa com o número de telefone móvel. Essa é a chave primária.” Ele também destacou que “os serviços de entitlement são fundamentais; preparar as operadoras para essa tecnologia é uma questão de velocidade de chegada ao mercado”. As operadoras que já implementaram essas soluções estão sendo integradas a ecossistemas de desenvolvedores que alcançam milhões de aplicações. As que ainda não o fizeram correm o risco de ficar à margem desse movimento.

      tecflow: O avanço do eSIM vem acelerando a digitalização dos serviços móveis. Na visão da Motive, quais ainda são as principais barreiras para uma adoção massiva dessa tecnologia na América Latina?

        Jay McMullan: Eu reformularia um pouco essa premissa: a demanda dos consumidores não é a principal barreira. Os números da Claro Brasil comprovam isso. A operadora registrou um crescimento de 63% nas ativações de eSIM em relação ao ano anterior e mantém uma taxa de adoção mensal de 15% desde o lançamento do serviço. Quando a experiência é simples e eficiente, os usuários aderem naturalmente.

        O verdadeiro desafio está na capacidade das operadoras de oferecer essa experiência em escala.

        O iPhone Air foi lançado como o primeiro smartphone disponível globalmente com suporte exclusivo a eSIM. Segundo projeções da GSMA Intelligence, mais da metade de todos os dispositivos será composta por modelos apenas com eSIM até 2030. Uma operadora que não disponha de uma infraestrutura moderna de provisionamento simplesmente não conseguirá atender uma parcela cada vez maior de seus assinantes premium. Não se trata de um risco futuro; é uma lacuna que já começa a se abrir hoje.

        Na prática, os desafios incluem infraestruturas legadas de ativação que não foram projetadas para gerenciar todo o ciclo de vida do eSIM, a fragmentação do ecossistema entre Apple e Android, cada um com especificações de fabricantes e requisitos da GSMA distintos, além de vulnerabilidades de segurança associadas a operadoras que ainda dependem de SMS OTP em vez de alternativas baseadas em SIM.

        A Claro enfrentou esses três desafios e tornou-se a primeira operadora da América Latina a lançar o recurso iOS eSIM Quick Transfer, ao mesmo tempo em que avança na expansão da solução para dispositivos Android. Esse é o modelo que outras operadoras devem seguir.

        tecflow: O projeto da Entel Chile demonstra o potencial da conectividade Direct-to-Device via satélite. Como essa tecnologia pode transformar o acesso à internet e aos serviços móveis em regiões sem cobertura terrestre, inclusive no Brasil?

          Jay McMullan: O que a Entel demonstrou foi algo que eu definiria como a superação do problema de sequenciamento. No modelo tradicional, primeiro constrói-se a infraestrutura e depois espera-se que a demanda justifique o investimento. Comunidades sem cobertura não conseguem demonstrar demanda comercial, e, como consequência, o investimento nunca acontece. A conectividade Direct-to-Device via satélite inverte completamente essa lógica.

          Os satélites de órbita baixa (LEO) comunicam-se diretamente com smartphones convencionais, sem necessidade de modificações nos aparelhos ou de infraestrutura terrestre adicional. A Entel alcançou mais de 450 mil usuários únicos em um único mês em regiões dos Andes que anteriormente não tinham qualquer sinal. Não se tratava de áreas com cobertura limitada, mas de verdadeiras lacunas no mapa de conectividade. E a demanda surgiu imediatamente.

          A Amazônia brasileira ocupa mais de cinco milhões de quilômetros quadrados. O potencial econômico associado à falta de conectividade nessa região é enorme. Segundo estimativas da GSMA Intelligence, a oportunidade de receita endereçável para serviços D2D via satélite pode alcançar cerca de US$ 30 bilhões até 2030, com prêmios de ARPU entre 20% e 25% nos mercados em que as operadoras estruturam corretamente sua oferta. Não é necessário especular sobre a existência de demanda reprimida. Ela já existe e se manifesta assim que a cobertura se torna disponível.

          A camada tecnológica que viabiliza essa experiência é o Entitlement Server, responsável por gerenciar de forma transparente a identidade do assinante entre redes terrestres e satelitais. Um usuário na Amazônia não deveria precisar se preocupar com qual rede está utilizando em determinado momento. O modelo de implementação já foi comprovado. A questão agora é a velocidade com que as operadoras conseguirão construir a infraestrutura necessária para oferecê-lo em larga escala.

          tecflow: Com a expansão da inteligência artificial, da Internet das Coisas (IoT) e dos dispositivos conectados, como a Motive enxerga a evolução da infraestrutura das operadoras e quais investimentos serão essenciais para suportar essa nova demanda nos próximos anos?

            Jay McMullan: A conversa que tenho com mais frequência atualmente gira em torno do que eu chamaria de uma encruzilhada da identidade digital. À medida que a inteligência artificial, a IoT e os dispositivos conectados multiplicam o número de eventos de autenticação que precisam ser gerenciados em tempo real, as operadoras enfrentam dois caminhos possíveis: tornar-se a camada de identidade confiável da economia digital ou limitar-se a ser a infraestrutura que transporta os serviços de terceiros, enquanto o valor gerado fica com outros participantes do mercado.

            As decisões de infraestrutura tomadas nos próximos dois ou três anos serão determinantes para definir em qual desses cenários cada operadora estará posicionada.

            O número de telefone móvel é a chave primária da identidade digital. Foi exatamente isso que a equipe do Google destacou durante nossa sessão no MWC 5G Future Summit. As operadoras são as únicas entidades capazes de verificar esse número por meio de autenticação criptográfica nativa da rede. O Entitlement Server é o elemento que permite transformar esse ativo em valor. Ele autentica dispositivos de forma silenciosa, provisiona serviços automaticamente e gerencia direitos de acesso em um universo cada vez maior de dispositivos conectados, incluindo eSIMs automotivos, wearables, aplicações industriais de IoT, network slicing em 5G e muito mais.

            A segunda prioridade estratégica é a monetização das APIs do Open Gateway. A estrutura criada pela GSMA permite que as operadoras comercializem capacidades nativas de suas redes, como identidade verificada, detecção de fraudes e serviços de localização, transformando-as em produtos voltados para empresas. Trata-se de um modelo de negócios concreto, não de uma possibilidade futura.

            As operadoras que investirem agora na construção dessa infraestrutura de autenticação terão suas capacidades integradas aos ecossistemas de desenvolvedores à medida que esses mercados crescerem. Já aquelas que optarem por esperar poderão descobrir que a arquitetura digital já foi construída em torno de outros participantes. É um padrão que já se repetiu diversas vezes na indústria e que tende a se repetir novamente.

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            Marciel

            Formado em Jornalismo, o editor atua há mais de 10 anos na cobertura de notícias relacionadas ao mercado B2B. Apesar de toda a Transformação Digital, ainda prefere ouvir música de forma analógica, no toca-discos.

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