Geração distribuída entra em ajuste: crise bilionária de créditos pode provocar onda de reestruturações no setor solar

O mercado de geração distribuída enfrenta um momento de ajuste após recuperação judicial bilionária da Thopen. Excesso de oferta, créditos de energia acumulados e pressão financeira podem acelerar fusões e reestruturações.

O mercado de geração distribuída enfrenta um momento de ajuste após recuperação judicial bilionária da Thopen. Excesso de oferta, créditos de energia acumulados e pressão financeira podem acelerar fusões e reestruturações.

A recuperação judicial do Grupo Pontal-Thopen, com dívidas de R$ 4,56 bilhões, acendeu um alerta no mercado brasileiro de geração distribuída. O caso, porém, é visto por especialistas e investidores como apenas a face mais visível de um movimento mais amplo que pode levar outras empresas do setor a renegociar dívidas, vender ativos e acelerar processos de reestruturação financeira.

O segmento, impulsionado pela expansão da energia solar nos últimos anos, enfrenta agora um cenário desafiador. O crescimento acelerado da capacidade instalada não foi acompanhado pela mesma velocidade na entrada de novos consumidores, provocando excesso de oferta, queda das margens e dificuldades para transformar a energia produzida em receita.

Excesso de oferta pressiona empresas de energia solar

A rápida expansão da geração distribuída foi incentivada pelos benefícios regulatórios da Lei nº 14.300, que criou regras de transição consideradas atrativas para novos projetos. O ambiente favorável estimulou uma verdadeira corrida por investimentos em usinas solares.

No entanto, em diversas áreas de concessão, a concorrência aumentou significativamente. Empresas passaram a disputar os mesmos consumidores oferecendo descontos cada vez maiores sobre a tarifa das distribuidoras, reduzindo a rentabilidade dos empreendimentos.

Na prática, muitos projetos continuam arcando com custos de operação, manutenção, arrendamentos e financiamentos, mas encontram dificuldades para comercializar toda a energia gerada.

Créditos de energia acumulados podem superar R$ 2 bilhões

Outro fator que preocupa o mercado é o elevado volume de créditos de energia sem utilização.

Estimativas que circulam entre agentes do setor apontam que o estoque de créditos acumulados pode alcançar R$ 2 bilhões. Esses créditos permanecem vinculados ao titular da unidade geradora e só podem ser compensados dentro da mesma área de concessão durante um prazo de até cinco anos.

Sem um mercado secundário que permita negociar esses créditos, parte da energia produzida acaba sem gerar receita imediata para os empreendedores.

Segundo Gustavo Ayala, CEO do Grupo Bolt, esse descompasso entre produção e comercialização já era esperado.

“Você constrói a usina olhando para o prazo regulatório, não para o mercado. Quando ela energiza, a curva de produção é uma e a curva de venda é outra.”

Aneel avalia mudanças nas regras

A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) analisa atualmente a Consulta Pública nº 011/2026, que discute justamente o tratamento regulatório e contábil dos créditos de geração distribuída que expiram.

Entre as propostas debatidas está a possibilidade de permitir a cessão desses créditos entre diferentes titulares, desde que permaneçam na mesma área de concessão e grupo tarifário.

Caso avance, a medida poderá aumentar a liquidez desses ativos e reduzir parte das perdas enfrentadas pelos empreendedores.

Bancos acompanham risco de novos casos

Instituições financeiras também passaram a monitorar com maior atenção os indicadores do setor.

Segundo Júlio Meirelles, responsável pela cobertura de energia na divisão de Project Finance do Santander, a principal preocupação é verificar se a comercialização dos créditos acompanha as projeções feitas quando os projetos foram financiados.

Em algumas áreas de concessão, segundo o executivo, a alocação dos créditos tem sido mais difícil do que o esperado, aumentando a pressão sobre o fluxo de caixa das empresas.

Grandes empresas também enfrentam pressão financeira

Os desafios não atingem apenas empresas de menor porte.

A Órigo Energia encerrou 2025 com dívida líquida de R$ 3,6 bilhões, crescimento de 61% em relação ao ano anterior, além de prejuízo de R$ 669 milhões. As despesas financeiras ultrapassaram a receita líquida da companhia no período.

Em agosto, a empresa realizou uma emissão de R$ 1,06 bilhão em debêntures conversíveis destinadas aos próprios acionistas. Segundo a companhia, o mercado passa por um processo natural de amadurecimento, exigindo maior eficiência operacional e estabilidade regulatória.

Já a Matrix Energia iniciou um processo de reestruturação administrativa, reduzindo custos e revendo sua estrutura, enquanto a própria Thopen afirma seguir operando normalmente durante seu processo de reorganização financeira.

Consolidação do setor deve acelerar

Na avaliação de analistas, o cenário tende a acelerar um movimento de consolidação que já vinha ocorrendo no mercado de geração distribuída.

Empresas com maior capacidade financeira podem ampliar sua participação por meio da aquisição de ativos de concorrentes em dificuldades, enquanto grupos mais alavancados deverão priorizar venda de usinas, renegociação de dívidas e reorganização financeira.

Nos últimos anos, a própria Thopen protagonizou diversas aquisições de usinas solares pertencentes a empresas como Vip Air, Matrix e Raízen. Outros investidores estratégicos, como a Brasol, também seguem expandindo presença por meio de fusões e aquisições.

Mercado entra em nova fase

Apesar das dificuldades enfrentadas por parte das empresas, representantes do setor avaliam que o momento representa um ajuste natural após anos de forte expansão.

A expectativa é que o mercado entre em uma fase mais seletiva, com maior disciplina financeira, modelos de negócio mais sustentáveis e foco em eficiência operacional.

Enquanto isso, o comportamento da demanda, a evolução da regulamentação e o tratamento dos créditos acumulados deverão definir quais empresas estarão preparadas para atravessar essa nova etapa da geração distribuída no Brasil.

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Redação tecflow

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