IA para prever desastres climáticos no Brasil esbarra em desafio que pode definir o sucesso do projeto

Projeto brasileiro de IA para prever eventos climáticos extremos depende da integração de dados públicos. Entenda os desafios do SIPEC e os impactos para o país.

Plano do governo aposta em Inteligência Artificial para antecipar eventos extremos, mas integração de dados entre milhares de sistemas públicos será decisiva para transformar a iniciativa em realidade

A Inteligência Artificial deve ganhar um papel estratégico na prevenção de desastres naturais no Brasil. Previsto no Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA) 2024-2028, o Sistema Inteligente de Previsão de Extremos Climáticos (SIPEC) promete utilizar IA para antecipar eventos como enchentes, secas e tempestades severas, fortalecendo a capacidade de resposta do poder público. No entanto, especialistas alertam que o maior desafio da iniciativa pode estar longe dos algoritmos.

Para que o sistema funcione de forma eficiente, será necessário integrar, em tempo real, informações espalhadas entre diferentes órgãos públicos, plataformas e bases de dados. Meteorologia, infraestrutura, meio ambiente, geografia e defesa civil são apenas algumas das áreas que precisarão compartilhar dados de forma segura e coordenada.

O maior desafio da IA não é a tecnologia

Embora a IA seja o centro das atenções, seu desempenho depende diretamente da qualidade e da disponibilidade das informações utilizadas para treinar e alimentar os modelos.

No caso do SIPEC, isso significa conectar sistemas legados, data centers próprios e ambientes multicloud, preservando segurança, governança e desempenho.

Segundo Guilherme Duarte, diretor técnico Latam da Denodo, esse costuma ser um dos pontos mais negligenciados em projetos de Inteligência Artificial.

“Projetos de Inteligência Artificial são frequentemente associados à qualidade dos modelos, mas existe uma etapa anterior que costuma ser subestimada: garantir que os dados corretos possam ser acessados com segurança, governança e em tempo real. Sem uma estratégia eficiente de integração de dados, iniciativas como o SIPEC correm o risco de enfrentar atrasos, custos elevados e dificuldades para escalar.”

Brasil ainda enfrenta desafios na digitalização dos municípios

O desafio se torna ainda maior diante do estágio de maturidade digital do setor público brasileiro.

Atualmente, apenas 1.676 dos 5.569 municípios atendem a todos os indicadores do Mapa de Governo Digital, ferramenta da Secretaria de Governo Digital do Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos.

Ao mesmo tempo, o Governo Federal pretende integrar 60% das cidades à plataforma GOV.BR até o fim deste ano, ampliando significativamente o compartilhamento de informações entre diferentes esferas da administração pública.

Esse cenário aumenta a necessidade de soluções capazes de conectar dados distribuídos sem comprometer segurança ou criar novas barreiras operacionais.

Como integrar dados sem precisar transferi-los

Uma alternativa que vem ganhando espaço em projetos de transformação digital é o gerenciamento lógico de dados por meio da virtualização.

Em vez de copiar ou migrar grandes volumes de informações para um único ambiente, essa abordagem cria uma camada lógica que conecta diferentes fontes em tempo real, mantendo os dados em seus repositórios originais.

Na prática, isso permite acelerar projetos, reduzir custos com infraestrutura e fortalecer a governança das informações.

Casos internacionais mostram potencial da estratégia

Diversas organizações públicas já adotaram esse modelo em projetos de grande escala.

Na Itália, o Instituto Nacional de Estatística (ISTAT) conectou mais de 200 fontes de dados administrativos e dispositivos IoT para acelerar a produção de estatísticas oficiais.

Nos Estados Unidos, a Pantex integrou sistemas ligados à segurança nuclear sem transferir informações para novos repositórios, reforçando os controles de acesso.

Na Bélgica, a agência pública de empregos Le Forem passou a unificar dados sobre candidatos, cursos e vagas para oferecer serviços personalizados em tempo real, respeitando os requisitos de privacidade.

IA pode transformar a prevenção de desastres no Brasil

Para especialistas, o SIPEC representa um avanço importante na aplicação da Inteligência Artificial no setor público brasileiro, mas seu sucesso dependerá menos da sofisticação dos algoritmos e mais da capacidade de conectar dados que hoje permanecem fragmentados entre diferentes órgãos e plataformas.

“O avanço da Inteligência Artificial no setor público torna a integração de dados uma questão estratégica. Quanto mais distribuídas estiverem as informações entre órgãos, sistemas legados e diferentes ambientes de nuvem, maior será a necessidade de arquiteturas capazes de conectá-las sem multiplicar cópias. O gerenciamento lógico de dados permite exatamente isso: disponibilizar uma visão unificada das informações para acelerar projetos de inovação, fortalecer a governança e aumentar a eficiência dos serviços públicos”, conclui Guilherme Duarte.

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Redação tecflow

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