
Estudo realizado em parceria com o Instituto Acende Brasil revela que o aumento do custo de capital e o “curtailment” drenaram o valor econômico das empresas em 2024.
O setor elétrico brasileiro, historicamente conhecido por sua resiliência e previsibilidade, encerra o ano de 2025 com um alerta ligado para investidores e reguladores. De acordo com a sétima edição do estudo de rentabilidade realizado pela KPMG Brasil em parceria com o Instituto Acende Brasil, a capacidade de geração de valor do setor sofreu um recuo severo em 2024. O índice de Valor Econômico Agregado (EVA) — que mede a riqueza real criada após descontar o custo do capital investido — registrou um saldo negativo de R$ 25 bilhões apenas no último ano, totalizando um prejuízo econômico acumulado de R$ 134 bilhões no período de 2017 a 2024.
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Dois fatores principais explicam por que, mesmo com lucros operacionais crescendo, as empresas estão “destruindo” valor econômico. O primeiro é o custo de capital elevado, impulsionado pela inflação persistente e pelas altas taxas de juros (Selic), que encarecem o financiamento de um setor extremamente intensivo em capital. O segundo fator, mais recente e alarmante, é o chamado curtailment (cortes de geração), que afetou diretamente o faturamento de usinas eólicas e solares ao impedir que a energia produzida fosse injetada na rede devido a restrições técnicas ou excesso de oferta.
A sócia-diretora da KPMG Brasil, Laryssa Lomeu, destaca que o Lucro Operacional Líquido após Impostos (NOPAT) até cresceu cerca de 7%, superando a inflação, mas não foi suficiente para compensar o ritmo de crescimento do capital investido (7,8% na média histórica). “Aumento de custo de capital e curtailment, somados à expectativa de retorno, explicam o EVA negativo em 2024, que é comparável ao cenário crítico de 2022”, resume a executiva. Na prática, isso significa que o retorno sobre o capital (ROIC) está ficando abaixo do custo médio ponderado de capital (WACC), gerando um spread negativo que desestimula novos aportes.

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Para Eduardo Müller Monteiro, diretor executivo do Instituto Acende Brasil, o setor vive um momento de “tendência muito negativa” após um breve período de recuperação durante a pandemia. Ele ressalta que o estudo busca trazer uma “visão serena” para evitar conclusões precipitadas, utilizando a métrica regulatória da Aneel para o custo de capital. Contudo, o cenário de 2024 mostrou uma elevação preocupante no spread econômico negativo, que saltou de 1,87% em 2023 para 3,52% no ano passado, evidenciando o distanciamento entre o lucro real e a remuneração mínima esperada pelos acionistas.
A amostra do estudo contemplou 48 corporações qualificáveis listadas na B3, com receita superior a R$ 500 milhões, abrangendo os segmentos de geração, transmissão e distribuição (GTD). Laryssa aponta que, embora o consumo de energia tenha sido impulsionado por residências, indústrias e pela nova demanda de data centers, o custo para manter essa infraestrutura cresceu acima da capacidade de retorno das tarifas e preços de mercado, especialmente em anos marcados por altos pagamentos de outorgas ao governo.

Olhando para o futuro imediato, as perspectivas para 2025 permanecem cautelosas. Embora os segmentos de transmissão e distribuição possam atuar como um contrapeso positivo devido à natureza de seus contratos, o elo da geração continua sofrendo com a “geração frustrada”. Eduardo Müller reforça que não há espaço para otimismo exagerado: “Acho que não dá para ser muito otimista, porque 2025 ainda vai carregar cortes muito elevados na geração”, afirma, referindo-se à insatisfação dos agentes após as recentes reformas legislativas no setor.
Outro ponto de atenção é a pressão política sobre as empresas. O diretor do Acende Brasil sinaliza que mensagens induzindo que as companhias “não podem parar de investir”, independentemente da rentabilidade, ignoram a lógica econômica de um setor que concorre por capital global. Com a taxa de juros do Banco Central em patamares elevados, o incentivo ao investimento privado diminui, já que o custo de oportunidade de manter o dinheiro em aplicações financeiras de baixo risco muitas vezes supera o retorno oferecido por projetos complexos de energia.
Apesar das adversidades, o Brasil ainda consegue atrair investidores estrangeiros que buscam diversificação de portfólio e possuem um custo de capital mais competitivo em seus países de origem. No entanto, o diagnóstico da KPMG e do Acende Brasil deixa claro que, para garantir a sustentabilidade do sistema elétrico a longo prazo, é preciso enfrentar os gargalos estruturais de custo e operação. Sem um retorno que supere o custo de capital, o risco é de uma estagnação nos investimentos justamente no momento em que o país precisa expandir sua matriz para a transição energética.
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Redação tecflow
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