
Após o sucesso da operação em Sergipe, o iFood detalha os desafios regulatórios da ANAC, a expansão para São Paulo e o papel central dos entregadores na “última milha” aérea que promete revolucionar o mercado em 2026.
O iFood acaba de elevar o patamar da sua estratégia logística com um aporte de peso na startup Speedbird Aero, consolidando o Brasil como um dos maiores laboratórios de inovação em mobilidade aérea não tripulada no mundo.
Em uma entrevista exclusiva ao tecflow, Mariana Werneck, diretora sênior de Logística do iFood, detalha como a companhia pretende escalar o uso de drones em 2026 para contornar gargalos urbanos, reduzir o tempo de entrega em áreas de difícil acesso e, sobretudo, integrar essa tecnologia de ponta ao trabalho cotidiano dos entregadores parceiros. Com o modal saindo da fase experimental e ganhando corpo sob rigorosos protocolos da ANAC, Werneck revela se estamos prestes a ver a “última milha” aérea se tornar o novo padrão de eficiência logística nas grandes metrópoles brasileiras.

tecflow: O comunicado menciona o foco em “rotas de longa distância inexistentes ou ineficientes”. Além da conexão entre shoppings e condomínios em SP, quais outras regiões geográficas do Brasil estão no radar prioritário do iFood para 2026 e por quê?
Mariana Werneck, diretora sênior de Logística do iFood: Nossa prioridade para 2026 não está centrada em uma cidade específica, mas em perfis de rota onde a tecnologia realmente resolve um gargalo logístico. Estamos olhando para grandes regiões metropolitanas e pólos urbanos com alta densidade populacional e barreiras físicas, como rodovias, rios ou grandes avenidas, que tornam determinados trajetos mais longos, menos eficientes e inviáveis no modelo tradicional.
O foco está em conexões estruturais entre hubs comerciais e áreas residenciais com forte demanda, em que o ganho de tempo e previsibilidade é relevante para o consumidor e para o ecossistema como um todo.

A expansão será de forma gradual e estratégica. Mais do que ampliar cobertura geográfica, trata-se de desenvolver uma nova camada de capacidade logística para o futuro do delivery nas grandes cidades.
tecflow: Com o novo aporte de US$ 5,8 milhões, qual é a meta de volume de entregas via drone para este ano? Já é possível prever quando o modal deixará de ser experimental para se tornar uma fatia representativa da receita logística da companhia?
Mariana Werneck: A operação em Sergipe já superou a marca de 2 mil pedidos, com crescimento consistente mês a mês, o que demonstra evolução operacional e validação do modelo em rotas específicas. A expansão ocorre de forma gradual, já que cada nova rota passa por protocolos rigorosos de segurança e coordenação do espaço aéreo, conduzidos pela Speedbird em alinhamento com DECEA e ANAC. Trata-se de um processo estruturado, que prioriza confiabilidade e estabilidade antes de qualquer aceleração de escala.
Neste momento, o foco está em consolidar a operação e ampliar a base de rotas de maneira responsável. O modal ainda representa uma parcela pequena da operação total e integra uma estratégia de longo prazo voltada à incorporação progressiva de novas tecnologias à logística urbana.

tecflow: A aprovação para aeronaves que suportam até 5 kg abre portas para categorias além da comida pronta (como mercado e farmácia). O iFood planeja utilizar os drones da Speedbird para o “iFood Mercado” de forma mais agressiva em 2026?
Mariana Werneck: A capacidade de até 5 kg amplia as possibilidades de uso da tecnologia, mas cada vertical tem características próprias. No caso de mercado, o ticket médio muitas vezes resulta em pedidos com volume e peso acima dessa faixa, o que limita a atratividade do modal neste momento. Em farmácia, há aderência maior em termos de peso, mas é preciso respeitar os requisitos específicos desse tipo de produto. Inicialmente, em 2026, continuaremos expandindo rotas de comida pronta, enquanto estudamos a possibilidade de adicionar outras categorias.
tecflow: Na prática, como o iFood está desenhando o treinamento ou a integração desses profissionais para que eles atuem em conjunto com os “droneports”? Haverá uma nova categoria de remuneração para quem faz a “última milha” do drone?
Mariana Werneck: A integração dos entregadores ao modelo multimodal já acontece na operação de Sergipe. O fluxo funciona de forma complementar: após o preparo no restaurante, o pedido é levado até uma estação de drone, de onde parte para o trecho aéreo. Ao chegar ao ponto de pouso, também estruturado como estação, o pedido fica disponível para retirada e um entregador parceiro realiza a etapa final até o cliente. Para o entregador, a dinâmica é bastante semelhante à de outras rotas: ele retira o pedido do drone, tendo sido previamente treinado para fazê-lo, e segue para a entrega no endereço final.
tecflow: A operação em Sergipe provou que a tecnologia resiste a ventos de 55 km/h e chuva leve. Qual é hoje o maior desafio para obter autorizações permanentes da ANAC em grandes metrópoles como São Paulo e Rio de Janeiro, onde o fluxo de pessoas e aeronaves é significativamente maior?
Mariana Werneck: O maior desafio regulatório envolve a segurança em áreas de alta densidade demográfica. Ainda assim, avanços relevantes já foram alcançados, como a certificação da Speedbird para voos além da linha de visada (BVLOS) e a autorização para sobrevoar áreas com até 5 mil pessoas por quilômetro quadrado, um marco importante para a logística aérea sobre pessoas.
Esse avanço se apoia em experiência prática: A Speedbird já realizou mais de 40 mil voos comerciais de entrega, o que contribui para o amadurecimento dos protocolos operacionais. Em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro, o desafio passa a ser estruturar rotas compatíveis com a complexidade urbana dessas cidades, mantendo os mesmos padrões técnicos que já vêm sendo aplicados em outras localidades.
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Marciel
Formado em Jornalismo, o editor atua há mais de 10 anos na cobertura de notícias relacionadas ao mercado B2B. Apesar de toda a Transformação Digital, ainda prefere ouvir música de forma analógica, no toca-discos.
