Fazendas de bots e IA exploram vulnerabilidadescognitivas dos idosos para ampliar golpes digitais

Criminosos passaram a utilizar redes automatizadas, repetição algorítmica e inteligência artificial para manipular mecanismos cerebrais ligados à confiança e à familiaridade. Em um país que ganhou 24,5 milhões de idosos conectados em poucos anos, a terceira idade tornou-se um dos principais alvos do crime digital

A vulnerabilidade dos idosos aos golpes digitais pode estar menos relacionada à falta de conhecimento tecnológico e mais à forma como o cérebro humano reage à exposição contínua a mensagens aparentemente confiáveis. Impulsionadas por inteligência artificial, fazendas de bots e sofisticadas técnicas de engenharia social, organizações criminosas vêm explorando mecanismos cognitivos conhecidos pela ciência para induzir pessoas com mais de 60 anos a confiar em informações falsas, realizar transferências bancárias e compartilhar conteúdos enganosos.

Segundo o advogado especialista em mídia e telecomunicações Walter Vieira Ceneviva, do Vieira Ceneviva Advogados e da LIBEX (Associação pela Liberdade de Expressão), o fenômeno não deve ser analisado apenas sob a ótica individual, mas também sob a responsabilidade das plataformas digitais. “Redes automatizadas de perfis falsos são capazes de criar uma falsa sensação de consenso e credibilidade. Quando essa exposição ocorre repetidamente, ela influencia processos mentais ligados à familiaridade e à confiança. O problema é global, mas a responsabilização das plataformas reduz significativamente os danos ao limitar a atuação dessas estruturas artificiais”, afirma.

O tema ganha relevância justamente quando o Brasil vive uma revolução silenciosa. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad Contínua), do IBGE, mostram que a proporção de idosos conectados saltou de 44,8% em 2019 para 69,4% em 2024. Na prática, isso representa aproximadamente 24,5 milhões de brasileiros com 60 anos ou mais utilizando a internet regularmente.

Mais do que conectados, eles se tornaram usuários intensivos. Levantamentos do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br) indicam que quase 88% dos idosos que utilizam internet acessam a rede diariamente, impulsionados principalmente pelo uso de aplicativos bancários, Pix, redes sociais e plataformas de mensagens.

A rápida digitalização transformou a população idosa em um dos segmentos mais valiosos da economia digital, mas também em um dos principais alvos das organizações criminosas. Com o apoio de inteligência artificial, criminosos conseguem hoje reproduzir vozes de familiares, simular aplicativos bancários, criar mensagens altamente personalizadas e desenvolver fraudes capazes de enganar até usuários experientes.

Ao contrário do senso comum, pesquisas internacionais da Universidade de Cambridge indicam que pessoas mais velhas não são necessariamente mais suscetíveis à desinformação do que os jovens. Em muitos casos, apresentam níveis iguais ou superiores de capacidade para identificar notícias falsas isoladas. A experiência de vida, a cautela e o senso crítico costumam funcionar como mecanismos naturais de proteção.

O problema surge quando entram em ação as chamadas fazendas de bots, estruturas compostas por milhares de perfis automatizados que simulam comportamento humano nas redes sociais. Essas redes artificiais ampliam mensagens, repetem narrativas e multiplicam contatos aparentemente legítimos, criando um ambiente de constante exposição a determinados conteúdos. Esse fenômeno é descrito como “ilusão da verdade por repetição”: quanto mais uma informação é vista, ouvida ou compartilhada por diferentes fontes aparentemente independentes, maior tende a ser a sensação de familiaridade e credibilidade atribuída a ela. Nos idosos, essa estratégia encontra terreno fértil porque muitos utilizam a internet prioritariamente para manter vínculos afetivos e relações de confiança com familiares e amigos.

É justamente nesse ambiente que prosperam os golpes mais modernos. Clonagem de voz por inteligência artificial, falsos atendimentos bancários, fraudes envolvendo Pix, perfis falsos e campanhas coordenadas de manipulação digital exploram emoções como confiança, urgência, medo e proteção familiar. O resultado é que a inclusão digital, celebrada durante anos como conquista social, passou a exigir uma nova etapa: a proteção digital. Dados da Anatel mostram que milhões de idosos brasileiros ainda permanecem desconectados. Mas especialistas alertam que o desafio mais urgente já não é apenas ampliar o acesso à internet. É garantir que aqueles que já estão conectados possam navegar em um ambiente digital mais seguro.

A discussão avança também em outras partes do mundo. Na Europa, novas regulamentações passaram a exigir maior responsabilidade das plataformas na identificação e remoção de conteúdos fraudulentos e redes automatizadas utilizadas para manipulação e aplicação de golpes. No Brasil, o crescimento simultâneo da população idosa conectada e das fraudes digitais recoloca no centro do debate a responsabilidade das big techs, das autoridades públicas e dos sistemas de proteção ao consumidor. Afinal, a questão já não é apenas tecnológica. Trata-se de entender como a inteligência artificial e as redes automatizadas passaram a disputar a atenção, a confiança e, em muitos casos, o patrimônio de milhões de brasileiros da terceira idade.

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Redação tecflow

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