Corte inédito de energia acende sinal vermelho e preocupa usinas no Brasil

Pela primeira vez, usinas de biomassa tiveram a geração de energia reduzida pelo ONS. Setor teme impactos na produção de açúcar, etanol e aumento dos custos.

Um corte inédito na geração de energia elétrica realizado pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) acendeu um alerta entre as usinas de cogeração movidas a biomassa no Brasil. Pela primeira vez, o operador acionou o chamado “curtailment” para esse tipo de empreendimento, obrigando diversas unidades a reduzir ou interromper temporariamente a produção de energia.

A medida, aplicada no dia 7 de junho, gerou preocupação no setor sucroenergético, que teme impactos operacionais, perdas financeiras e até riscos à segurança das plantas industriais caso a prática passe a ser frequente.

O que é o curtailment?

Curtailment é o nome dado ao corte temporário da geração de energia quando o sistema elétrico identifica excesso de oferta ou risco à estabilidade da rede.

Nos últimos anos, esse mecanismo vinha sendo aplicado principalmente em usinas eólicas e solares. Agora, pela primeira vez, também atingiu usinas de cogeração que utilizam o bagaço da cana-de-açúcar para produzir eletricidade.

Como aconteceu o corte

No dia 6 de junho, o ONS comunicou às distribuidoras que seria necessário reduzir 1 gigawatt (GW) de geração entre 10h e 14h do dia seguinte.

Cada distribuidora ficou responsável por definir quais usinas sofreriam a redução temporária na geração.

Segundo informações do setor, somente a CPFL Paulista acionou 86 usinas, sendo 55 delas movidas à biomassa. Já a Cemig informou que distribuiu os cortes de forma igualitária entre todas as unidades contratadas.

Produção de açúcar e etanol preocupa

Diferentemente das usinas solares e eólicas, as unidades de biomassa utilizam o vapor gerado pela queima do bagaço da cana não apenas para produzir energia elétrica, mas também para manter todo o processo industrial funcionando.

Por isso, reduzir a geração elétrica pode afetar diretamente a moagem da cana e a produção de açúcar e etanol.

Embora a maioria das empresas tenha conseguido adaptar suas operações, algumas precisaram reduzir ou até interromper temporariamente a moagem.

A Tereos, por exemplo, confirmou que precisou reduzir sua geração, mas informou que não houve prejuízos significativos para a produção.

Setor teme novos cortes

Apesar do impacto limitado neste primeiro episódio, representantes do setor afirmam que novos acionamentos podem trazer consequências muito maiores.

Segundo Newton Duarte, presidente da Associação da Indústria de Cogeração de Energia (Cogen), operar com geração reduzida provoca instabilidade no funcionamento das usinas.

“Na hora que eu não tenho mais exportação, tenho que trabalhar o gerador em uma menor carga, mas ainda tem que funcionar porque eu preciso de energia elétrica no processo, e preciso de menos vapor para a turbina, porque ela não está mais em sua potência nominal. E esse estágio não é estável.”

O CEO da São Martinho, Fábio Venturelli, comparou a situação ao funcionamento de um veículo.

“É como se você estivesse andando com um carro com tração nas quatro rodas, e de repente tivesse que continuar andando com uma roda travada, mantendo o carro em movimento e em equilíbrio até o destino.”

Segundo ele, o maior risco é que mudanças bruscas na geração provoquem acidentes industriais.

“Isso pode levar a um acidente, uma fatalidade.”

Custos podem disparar

Para Luiz Gustavo Junqueira, diretor comercial da Usina Alta Mogiana, interromper a moagem por algumas horas pode tornar toda a operação economicamente inviável.

“É bem contraproducente. Operacionalmente, pode ser um desastre.”

Ele também alertou para outro problema: o acúmulo de bagaço de cana.

Sem gerar energia normalmente, parte desse material deixa de ser consumida e pode se transformar em um passivo para as usinas, que nem sempre possuem espaço para armazená-lo ou compradores disponíveis.

Quem paga essa conta?

Além da perda de receita pela energia que deixa de ser comercializada, especialistas afirmam que atualmente não existe previsão de compensação financeira para as usinas de biomassa quando ocorre esse tipo de corte.

Enquanto isso, as distribuidoras afirmam que apenas cumprem determinações do ONS.

Segundo o operador, o plano tem como objetivo preservar a estabilidade do Sistema Interligado Nacional (SIN) em períodos de baixa demanda e alta geração distribuída, evitando riscos ao fornecimento de energia para a população.

Mesmo assim, o episódio abriu um novo debate no setor elétrico sobre como conciliar a expansão das fontes renováveis com a segurança operacional das usinas de cogeração.

Com informações do site.

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Redação tecflow

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