

A ascensão da inteligência artificial generativa está promovendo uma das maiores transformações já vistas no mercado de tecnologia. Em um cenário no qual ferramentas inteligentes assumem tarefas repetitivas e aceleram o desenvolvimento de software, empresas passam a buscar profissionais capazes de ir além do domínio técnico, combinando pensamento crítico, visão de negócios, capacidade analítica e habilidades comportamentais.
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Dados do World Economic Forum indicam que quase 40% das competências exigidas pelo mercado devem mudar até 2030, impulsionando a demanda por talentos capazes de trabalhar em parceria com a IA e transformar tecnologia em resultados concretos. Nesse contexto, funções ligadas à engenharia de software, dados, cibersegurança, gestão de produtos e liderança tecnológica ganham novos contornos, enquanto a capacidade de resolver problemas complexos se torna um diferencial cada vez mais valorizado.

Em entrevista exclusiva ao tecflow, Ticiana Amorim, fundadora e CEO da Aarin, analisa como a inteligência artificial está redefinindo as carreiras em tecnologia, quais competências serão indispensáveis nos próximos anos, como as empresas devem identificar os profissionais mais preparados para esse novo cenário e o que estudantes e especialistas podem fazer hoje para se manterem relevantes em um mercado cada vez mais orientado por IA.

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tecflow: Com o avanço da inteligência artificial, quais competências passarão a ser mais importantes do que o domínio técnico da programação?
Ticiana Amorim, fundadora e CEO da Aarin: Durante muitos anos, a programação foi vista como a principal competência de um profissional de tecnologia. Com o avanço da IA generativa, escrever código deixa de ser o principal diferencial competitivo e passa a ser uma capacidade potencializada por ferramentas inteligentes.
O que realmente ganha valor é a capacidade de resolver problemas complexos. As pesquisas mais recentes indicam que competências como pensamento crítico para validar e questionar respostas produzidas pela IA, capacidade de decompor problemas complexos em tarefas solucionáveis, entendimento profundo do negócio e do contexto de aplicação da tecnologia, julgamento para decidir quando confiar ou revisar sugestões da IA, criatividade para desenvolver soluções inovadoras e habilidades de comunicação e colaboração multidisciplinar serão cada vez mais relevantes.
Em outras palavras, o mercado tende a valorizar menos quem apenas domina linguagens de programação e mais quem consegue transformar tecnologia em resultados concretos para os negócios. Essa tendência está alinhada às competências apontadas pelo World Economic Forum, como pensamento analítico, criatividade, resiliência e alfabetização em IA entre as habilidades mais importantes da próxima década.
tecflow: Na sua visão, quais serão os profissionais mais valorizados pelo mercado de tecnologia nos próximos cinco anos e por quê?
Ticiana Amorim: Os profissionais mais valorizados não serão necessariamente aqueles com maior domínio técnico, mas aqueles capazes de integrar tecnologia, inteligência artificial e estratégia de negócio.
Entre os perfis que devem ganhar destaque estão engenheiros de software capazes de orquestrar agentes de IA, arquitetar sistemas complexos e garantir qualidade, segurança e escalabilidade; Product Managers com forte domínio de IA, dados e segurança; especialistas em dados responsáveis pela governança, qualidade e avaliação de modelos; profissionais de cibersegurança preparados para proteger ambientes cada vez mais distribuídos e automatizados; e líderes capazes de conduzir transformações organizacionais e preparar equipes para trabalhar em colaboração com a inteligência artificial.
O mercado tende a premiar profissionais híbridos, que combinam profundidade técnica, visão sistêmica e capacidade de tomada de decisão. Esse movimento se aproxima do conceito de Frontier Firms, apresentado pela Microsoft, no qual pessoas passam a liderar equipes compostas por profissionais e agentes de IA.

tecflow: Como as empresas podem identificar candidatos capazes de unir conhecimento técnico, visão de negócios e habilidades comportamentais?
Ticiana Amorim: Os processos seletivos também precisarão evoluir. Avaliar apenas o conhecimento técnico será cada vez menos suficiente.
As empresas devem observar a capacidade de estruturar problemas antes de propor soluções, a habilidade para traduzir necessidades de negócio em decisões técnicas, o pensamento crítico no uso de ferramentas de IA, a comunicação clara com profissionais de diferentes áreas e a curiosidade associada à aprendizagem contínua.
Na prática, isso significa substituir entrevistas focadas exclusivamente em algoritmos ou linguagens de programação por estudos de caso que exijam tomada de decisão, justificativa das escolhas e demonstração de colaboração.
Em um cenário em que a IA democratiza parte da execução técnica, o diferencial passa a ser a qualidade do julgamento humano.
tecflow: De que forma a IA generativa está transformando o dia a dia das equipes de tecnologia e quais funções tendem a ganhar mais relevância nesse novo cenário?
Ticiana Amorim: A principal transformação não é a substituição do desenvolvedor, mas a redistribuição do seu tempo.
Atividades repetitivas, como geração de código, documentação, testes iniciais e refatorações, já podem ser realizadas com apoio da IA, permitindo que os profissionais dediquem mais tempo ao desenho de arquiteturas, à resolução de problemas complexos e às decisões estratégicas sobre produtos.
Nesse contexto, áreas como Engenharia de Plataforma, Arquitetura de Software, AI Engineering, Engenharia de Dados, Segurança aplicada à IA, Governança e avaliação de modelos, Product Management e Design de experiências com IA ganham relevância.
Ao mesmo tempo, cresce a demanda por profissionais capazes de coordenar agentes inteligentes, supervisionar suas decisões e garantir confiabilidade, privacidade e conformidade regulatória. O papel do engenheiro deixa de estar centrado apenas na escrita de código e passa a envolver o desenho e a evolução de sistemas inteligentes.
tecflow: Que conselhos você daria para estudantes e profissionais que desejam se preparar hoje para as profissões do futuro na área de tecnologia?
Ticiana Amorim: O primeiro conselho é deixar de enxergar a IA como concorrente e passar a vê-la como uma ferramenta de trabalho. A alfabetização em inteligência artificial tende a deixar de ser um diferencial para se tornar uma competência básica.
Também é fundamental fortalecer os fundamentos de computação, arquitetura e engenharia de software, desenvolver um entendimento profundo dos negócios e dos problemas reais dos clientes, manter uma aprendizagem contínua diante do ritmo acelerado da evolução tecnológica e investir em comunicação, colaboração e liderança, competências que continuam essencialmente humanas.
Além disso, é importante utilizar a IA no dia a dia, mas sempre exercendo pensamento crítico e validando seus resultados. As pesquisas convergem para uma mesma conclusão: os profissionais mais competitivos serão aqueles que souberem trabalhar em parceria com a inteligência artificial, utilizando seu potencial para ampliar produtividade, criatividade e qualidade na tomada de decisões.
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Marciel
Formado em Jornalismo, o editor atua há mais de 10 anos na cobertura de notícias relacionadas ao mercado B2B. Apesar de toda a Transformação Digital, ainda prefere ouvir música de forma analógica, no toca-discos.