

Por Silvio Ferraz de Campos, CEO da Positivo Servers & Solutions*
Tenho visto empresas se preocuparem com o orçamento da infraestrutura de IA sem olhar com a mesma atenção para um tema decisivo: o calor. Compram GPU, planejam modelos, discutem nuvem, segurança e dados. Mas, muitas vezes, a refrigeração ainda aparece como mero detalhe técnico. Esse é um erro que pode sair bem caro.
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Datacenters projetados para aplicações tradicionais agora recebem servidores com exigências físicas muito mais intensas. A questão deixou de ser apenas tecnológica e tornou-se corporativa: o ambiente está preparado para a IA que a empresa pretende escalar?
A resposta exige compreender a mudança de escala. Projeções indicam que a IA representará metade das cargas de trabalho até 2030, demandam enorme expansão energética e computacional. Infraestruturas tradicionais operam em torno de 12 kW por rack, enquanto sistemas de IA podem exigir entre 41 kW e 130 kW. Nesse cenário, o resfriamento a ar já não basta.
Por isso a refrigeração líquida ganhou protagonismo. Líquidos removem calor de forma mais eficiente e próxima do chip, o que permite suportar cargas elevadas de GPU sem comprometer desempenho. Parece detalhe de engenharia, mas define a capacidade de sustentar modelos maiores, reduzir latência e evitar desperdício de investimento.
Quando a temperatura sobe, as GPUs reduzem velocidade para se proteger, fenômeno conhecido como thermal throttling (estrangulamento térmico). Na prática, significa perda de capacidade computacional em equipamentos caros. Investimos em hardware, energia e talentos, mas perdemos performance por não tratar refrigeração como prioridade de competitividade.

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Nesse ponto, o PUE (Indicador de Uso de Energia) deixou de ser apenas dado técnico e passou a simbolizar eficiência econômica e ambiental. Quanto menor o desperdício de energia, mais enxuto e sustentável se torna o datacenter. Grandes provedores globais já mostram avanços em eficiência térmica e redução de consumo, o que equivale dizer que refrigeração não é custo, mas diferencial competitivo e ativo valioso na pauta de sustentabilidade.
O mercado sinaliza urgência. O segmento de liquid cooling (refrigeração líquida) cresce rapidamente porque responde a uma demanda concreta: manter infraestrutura de alta densidade estável e eficiente. Quem começar cedo ganhará aprendizado e adaptação. Quem postergar enfrentará urgência, custo elevado e dependência maior de parceiros.
Três soluções principais se destacam: resfriamento direto ao chip, imersão em fluido dielétrico em fase única e imersão em duas fases. Cada modelo gera impactos distintos sobre manutenção, retrofit, densidade computacional e risco operacional, mas também abre espaço para ganhos de eficiência e vantagem competitiva.
O tema já ultrapassou o âmbito técnico. A refrigeração influencia arquitetura de IA, orçamento de capital, continuidade do negócio e competitividade. Equipes de datacenter precisarão operar ambientes preparados para GPU, redes de alta largura de banda e sistemas avançados de refrigeração. O parceiro tecnológico escolhido será determinante para a capacidade operacional dos próximos anos.
No Brasil, o desafio é ainda mais sensível. Limitações energéticas, metas ambientais, pressão por eficiência e maturidade desigual dos parques tecnológicos tornam a decisão complexa. CIOs convivem com restrição orçamentária, legado técnico e pressão por resultados rápidos em IA.
Não existe solução única. Muitas empresas adotarão modelos híbridos, com parte da operação em ar e ilhas específicas para cargas de IA com refrigeração líquida. Isso exige planejamento térmico, gestão energética, qualificação de equipes e visão clara de risco. O maior perigo talvez seja o timing. O mercado ainda oferece espaço para aprendizado e adaptação, mas nos próximos anos, com maior demanda por capacidade elétrica, componentes e especialistas, a pressão sobre custos e disponibilidade aumentará.
Liquid cooling, portanto, deixou de ser pauta exclusiva da engenharia. O CIO precisa levar o tema ao centro da estratégia de negócios, avaliar custo total, risco operacional, impacto em eficiência energética e metas ESG. O CEO deve enxergar refrigeração como parte inseparável da estratégia de IA. E o CFO precisa entender que calor invisível também pesa no resultado financeiro.
A inteligência artificial recolocou o datacenter no centro das decisões corporativas. Empresas que integrarem computação, energia e refrigeração como uma única gestão estarão mais preparadas para competir. As demais correm o risco de descobrir tarde demais que o calor já entrou no orçamento.

Silvio Ferraz de Campos é CEO da Positivo Servers & Solutions. Formado em administração de empresas e responsável pelo marketing e vendas da Positivo Servers & Solutions, ele trabalha há mais de 30 anos no setor de TI. Em 1988, fundou a Accept, antigo nome da Positivo Servers & Solutions.
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Redação tecflow
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