De consumidor a protagonista digital: o que a expansão dos data centers brasileiros revela sobre o país

* Por Carlos Rubim

Brasil aumentou sua quantidade de data centers, mas continua atrás da Europa e economias do G20

Em apenas um ano, o Brasil mais que dobrou a quantidade de data centers instalados em seu território. Em 2024, o país registrava a existência de 97 estruturas, enquanto em 2025 esse número chegou a 196, de acordo com o levantamento do DataCenter Map. Apesar do avanço, a quantidade ainda é menor que a de grandes potências, como Reino Unido (518) e Estados Unidos (4.266).

Por um lado, a expansão dessas estruturas em solo brasileiro segue a tendência mundial de aumento da demanda por dados e capacidade de nuvem. A ampla adoção de cloud computing e a popularização das ferramentas de Inteligência Artificial (IA) exigiu que investimentos em data centers fossem feitos ao redor de todo o mundo para suportar esse novo comportamento digital. No caso específico do Brasil, o tamanho da população, o alto consumo e a instalação de estrutura prévias, como cabos submarinos, tornaram o país ainda mais atrativo para esses investimentos.

O Brasil consumidor de dados

Em termos demográficos, o Brasil representa uma população economicamente ativa de 107 milhões de pessoas, segundo o IBGE. Somando isso à segunda posição no ranking de países que mais passa tempo online no mundo, temos um território que dezenas de milhões de pessoas estão buscando serviços para consumir na internet.

Ao aproximar esses dados com os data centers, as empresas aumentam a retenção e satisfação dos seus serviços. Quando a distância que os dados precisam viajar é menor, o aparelho se conecta ao servidor com mais velocidade, o que diminui a chance de um cliente sair do site ou aplicativo, e, consequentemente, buscar um concorrente que tenha uma conexão melhor.

Além das vantagens econômicas, o Brasil tem um potencial energético muito positivo para a instalação dessas estruturas, visto que os data centers são conhecidos por consumirem um alto volume de energia. Como o caso do Data Center Vinhedo 1, instalado em Vinhedo, interior de São Paulo, que tem uma capacidade energética de até 27MW. Para evitar um impacto ambiental muito grande com fontes não renováveis, é preferível instalá-los em países que têm ampla disponibilidade para a geração de energia solar, hidroelétricas e eólica.

Alimentando os data centers

O caso dos Estados Unidos, líder mundial na quantidade de data centers, ajuda a explicar o motivo pelo qual o potencial energético do Brasil é tão atrativo. De acordo com o International Energy Agency, as fontes solar e eólica são responsáveis por produzir 24% da energia consumida pelos data centers norte-americanos. No entanto, o custo ambiental continua alto para o país, visto que a principal fonte energética dessas estruturas ainda é o gás natural, suprindo 40% da demanda.

No caso brasileiro, com sua localização mais próxima à linha do Equador, a maior incidência de raios solares torna o país mais propício para a produção desse tipo de energia, permitindo o planejamento de data centers que se apoiem mais nessa fonte. De toda forma, por mais eficiente que seja a estrutura, a demanda energética para o resfriamento dificilmente será atendida somente com a produção das usinas fotovoltaicas. Porém, no Brasil, esse complemento pode ser feito com hidrelétricas, reduzindo ainda mais a pegada de carbono.

Apesar dessas vantagens, que já trouxeram resultados positivos, o Brasil ainda está longe de se tornar um protagonista digital como outros países do G20. Entre os desafios, destacam-se a escassez de mão de obra específica qualificada para operar as estruturas e a burocracia para instalação.

Desta maneira, a caminhada do Brasil para se tornar um grande hub de data centers ainda é longa, mas será responsável por fornecer valiosas lições à indústria para a construção de estruturas cada vez mais alinhadas aos objetivos sustentáveis.

*Carlos Rubim é Gerente de Produtos da Fluke do Brasil, companhia líder mundial em ferramentas de teste e medição.

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