Fenômeno climático favorece a produção de energia solar e eólica, mas limitações na transmissão e na capacidade de armazenamento mantêm cortes de geração e elevam custos do sistema
O retorno do fenômeno El Niño deve aumentar a geração de energia solar e eólica no Brasil nos próximos meses, mas especialistas alertam que o ganho na produção das fontes renováveis não será suficiente para eliminar um dos principais desafios do setor elétrico: o desperdício de energia causado pelos cortes de geração, conhecidos como curtailment.
Embora o senso comum associe o El Niño apenas aos impactos sobre os reservatórios das hidrelétricas, seus efeitos também influenciam diretamente a produção de energia renovável. O fenômeno altera o regime de chuvas e ventos no país, favorecendo principalmente os parques eólicos instalados no Nordeste e ampliando a incidência de radiação solar sobre regiões com grande concentração de usinas fotovoltaicas.
Segundo Alexandre Nascimento, sócio-diretor e meteorologista da consultoria Nottus, o padrão climático típico do El Niño acaba criando condições mais favoráveis para a geração renovável.
“Com a chuva mais concentrada sobre o Centro-Sul, os ventos no Nordeste são favorecidos. Na teoria, deveríamos ter uma geração até maior do que o normal. A radiação solar fica muito intensa no Centro-Norte, o que inclui todo o cinturão solar, onde estão as principais fazendas”, afirma.
Por Fabio Miyagawa
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Além da maior produção, o aumento das temperaturas provocado pelo fenômeno também tende a elevar o consumo de eletricidade, principalmente pelo uso intensivo de aparelhos de ar-condicionado e sistemas de refrigeração.
De acordo com as meteorologistas Carine Malagolini Gama e Ana Marques, da Climatempo, esse crescimento da demanda pode ajudar parcialmente a absorver a energia renovável disponível.
“Por outro lado, os anos de El Niño tendem a ser mais quentes no Brasil, aumentando o consumo. Com maior demanda, pode haver necessidade de mais geração, o que ajuda a absorver parte da produção renovável e reduz os cortes em alguns momentos”, explica Carine.
Por que a energia continua sendo desperdiçada?
Apesar do cenário aparentemente favorável, especialistas destacam que o aumento da geração renovável não elimina os cortes realizados pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS).
O principal motivo está no descompasso entre os horários de produção das usinas solares e o pico de consumo de energia no país. Enquanto a geração fotovoltaica atinge seu máximo durante o dia, a maior demanda ocorre no início da noite, quando a incidência solar praticamente desaparece.
Segundo Nivalde de Castro, coordenador-geral do Grupo de Estudos do Setor Elétrico (Gesel/UFRJ), esse desequilíbrio é consequência da rápida expansão da geração distribuída, especialmente da energia solar, sem que a infraestrutura acompanhasse esse crescimento.
“Isso ocorre diariamente: corta-se durante o dia de sol e acionam-se as termelétricas no entardecer, quando a demanda sobe e o sol desaparece”, afirma.
Nos últimos anos, a geração solar cresceu cerca de 44% em apenas um ano, adicionando uma grande quantidade de energia ao sistema. Entretanto, a expansão das linhas de transmissão e das soluções de armazenamento, como baterias em larga escala, não avançou na mesma velocidade.
Como consequência, parte da energia renovável, considerada a mais barata da matriz elétrica, acaba sendo descartada em determinados períodos do dia, enquanto usinas termelétricas, mais caras e mais poluentes, precisam ser acionadas durante o horário de pico.
Armazenamento ganha protagonismo
O cenário reforça a necessidade de investimentos em sistemas de armazenamento de energia (BESS – Battery Energy Storage Systems), considerados por especialistas uma das principais soluções para aumentar a flexibilidade da rede elétrica.
As baterias permitem armazenar o excedente gerado durante o dia e disponibilizá-lo justamente nos horários de maior consumo, reduzindo tanto o desperdício quanto a necessidade de despacho de termelétricas.
Além disso, a ampliação das redes de transmissão também é apontada como essencial para transportar a energia produzida nas regiões de maior geração renovável até os grandes centros consumidores.
Setor defende mudanças estruturais
A Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica (Abradee) avalia que o problema também passa por uma reorganização do modelo regulatório do setor.
A entidade defende a revisão de políticas de subsídios que incentivaram a expansão acelerada de determinadas fontes de geração sem mecanismos suficientes de flexibilidade e armazenamento.
Segundo a associação, essa combinação vem provocando dificuldades operacionais e aumentando os custos repassados aos consumidores.
Transição energética exige infraestrutura
Embora o El Niño contribua para ampliar a produção de energia limpa no Brasil, especialistas avaliam que o fenômeno, por si só, não resolve os gargalos estruturais do sistema elétrico nacional.
Sem investimentos em transmissão, armazenamento e modernização da operação da rede, o país continuará enfrentando situações em que parte da energia renovável disponível será desperdiçada, enquanto fontes mais caras permanecem necessárias para garantir o abastecimento durante os horários de maior demanda.
O desafio, portanto, deixa de ser apenas gerar mais energia renovável e passa a ser garantir que toda essa produção possa ser aproveitada de forma eficiente, fortalecendo a segurança energética e reduzindo custos para consumidores e empresas.
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