

O avanço da geração de energia renovável no Brasil trouxe um novo desafio para o setor elétrico: produzir energia não garante mais que ela será aproveitada. Durante a abertura do Brazil Windpower (BWP) 2026, realizada em São Paulo, representantes da indústria defenderam mudanças estruturais para reduzir os impactos do curtailment, ampliar a capacidade das redes elétricas e criar um ambiente regulatório capaz de sustentar novos investimentos.
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Segundo dados apresentados no evento, os cortes de geração entre outubro de 2021 e setembro de 2025 provocaram perdas próximas de R$ 6 bilhões para o setor eólico brasileiro. O tema dominou os debates do primeiro dia do congresso, que também abordou armazenamento de energia, expansão da transmissão, eletrificação da economia e desenvolvimento da indústria nacional.
Perdas bilionárias preocupam o mercado
Os números apresentados durante o evento mostram a dimensão do problema.
| Indicador | Resultado |
|---|---|
| Período analisado | Outubro de 2021 a setembro de 2025 |
| Perdas estimadas com curtailment | Quase R$ 6 bilhões |
| Crescimento das restrições ligadas à sobreoferta em 2026 | 52,7% |
Na avaliação da presidente-executiva da ABEEólica, Elbia Gannoum, o setor precisa de uma atuação coordenada para ampliar a capacidade de conexão da geração renovável e reduzir as restrições impostas ao sistema elétrico.
Já João Galamba, diretor do Global Wind Energy Council (GWEC), destacou que o desafio deixou de ser apenas instalar novos parques eólicos.
“A próxima fase não é mais megawatts a qualquer preço. É megawatts na hora certa para que o sistema possa contar”.
O executivo também anunciou que o Brasil será prioridade de uma iniciativa global do GWEC voltada à modernização das redes elétricas entre 2027 e 2028.
Curtailment expõe limitações da infraestrutura
Um dos painéis mais aguardados do evento discutiu o crescimento das restrições operacionais que impedem o aproveitamento integral da energia produzida.
Segundo Donato Filho, CEO da Volt Robotics, o problema vai além da geração de eletricidade.
“Não está sobrando energia; está faltando flexibilidade”.
De acordo com os dados apresentados durante o painel, as restrições relacionadas à sobreoferta cresceram mais de 52,7% apenas em 2026.

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Cortes atingem energia solar e eólica
Representantes das empresas do setor afirmaram que as limitações já afetam uma parcela significativa da produção nacional.
| Fonte de energia | Geração impactada |
|---|---|
| Energia solar | Cerca de 30% |
| Energia eólica | Cerca de 25% |
Além das perdas financeiras, os especialistas destacaram que o volume de energia restringida já influencia decisões sobre novos investimentos em geração renovável.
Regras mais claras e armazenamento entram na pauta
Outro tema recorrente foi a necessidade de aprimorar o ambiente regulatório.
Especialistas defenderam regras mais transparentes para classificar os diferentes tipos de cortes de geração e estabelecer critérios objetivos para eventuais ressarcimentos.
Durante o debate, Francine Pisni, gerente-executiva de Assuntos Regulatórios da Auren, destacou uma limitação importante dos dados atualmente disponíveis.
“Há transparência, mas ela não é suficiente”.
Os participantes também apontaram o armazenamento de energia e novos sinais tarifários como instrumentos capazes de aumentar a flexibilidade do sistema elétrico e reduzir os impactos do curtailment.
Eletrificação pode aumentar o consumo de energia limpa
Além de investir em infraestrutura, representantes do setor defenderam políticas capazes de ampliar o consumo de eletricidade no país.
Entre as oportunidades discutidas estão a eletrificação da indústria, do transporte e a atração de empreendimentos de alto consumo energético, como data centers.
Segundo Laura Porto, diretora da Neoenergia e presidente do Conselho de Administração da ABEEólica, o Brasil precisa criar condições para utilizar toda a energia renovável que produz.
“O problema do Brasil não é ter energia renovável demais. O problema é ainda não termos um sistema capaz de aproveitar plenamente toda a energia limpa que somos capazes de produzir”.
Durante outro painel, ela também ressaltou o papel estratégico das fontes renováveis.
“A agenda de segurança energética deixa de ser uma agenda só de clima e passa a ser uma agenda de segurança”.
Investimentos dependem de segurança regulatória
Executivos e autoridades presentes no evento afirmaram que o crescimento da energia eólica dependerá não apenas da expansão da geração, mas também de maior previsibilidade regulatória.
Entre os temas apontados como prioritários estão:
| Prioridades para o setor | Objetivo |
|---|---|
| Modernização das redes | Reduzir restrições operacionais |
| Expansão da transmissão | Melhorar o escoamento da energia |
| Armazenamento de energia | Aumentar a flexibilidade do sistema |
| Regras para o curtailment | Dar previsibilidade aos investidores |
| Incentivos industriais | Fortalecer a cadeia produtiva nacional |
O deputado federal Arnaldo Jardim também defendeu avanços nas regras relacionadas ao rateio dos custos do curtailment, armazenamento de energia, licenciamento ambiental e fortalecimento da indústria nacional.
Eólica offshore também avança
O congresso ainda discutiu o desenvolvimento da energia eólica offshore no Brasil.
A Empresa de Pesquisa Energética (EPE) apresentou uma metodologia para identificar áreas prioritárias para futuros projetos em alto-mar, considerando critérios técnicos, ambientais, sociais e econômicos.
A iniciativa representa uma das etapas necessárias para consolidar essa nova fronteira da geração renovável no país.
Ao final do primeiro dia do Brazil Windpower 2026, o consenso entre especialistas foi de que o crescimento da energia eólica dependerá cada vez menos da capacidade de produzir eletricidade e cada vez mais da habilidade do sistema.
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Redação tecflow
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